Síndrome Metabólica: o perigo que vem de dentro
Devido a alguns tipos de gordura, a doença atinge obesos e magros

Por Keli Vasconcelos
Doces, pizza, picanha. Não há mortal que resista a variedade de tentações existentes no mercado e que já abusou – e se arrependeu – de ingerir guloseimas em demasia. Resultado: as “gordurinhas indesejadas” que são denunciadas quando estamos na frente do espelho. Além de incômodo, o aumento de peso causa uma série de complicações graves. Uma delas é a Síndrome Metabólica (SM).

Batizado antes, em 1988, como Síndrome X, este distúrbio é a junção de várias disfunções numa mesma pessoa como Diabetes Mellitus tipo 2, hipertensão, colesterol alto e problemas cardiovasculares, interligado a uma má alimentação, sedentarismo e fatores genéticos. A conseqüência é acúmulo de gordura principalmente no abdômen – chamada também de gordura visceral.

Sua característica está na resistência à insulina (hiperinsulinemia), hormônio produzido pelo pâncreas que queima o açúcar do sangue (glicose) e leva-o às células, que o utiliza como energia. Outros hormônios vindos da gordura ruim atrapalham esse funcionamento como a adiponectina e impedem a produção de colesterol bom (Hight Density Lipoprotein - HDL), por exemplo.

“Quem ultrapassa no teste da fita métrica 88 centímetros nas mulheres e 102 centímetros nos homens, o risco da Síndrome aumenta de 3 a 5 vezes”, explica o endocrinologista do Grupo de Obesidade e Doenças Metabólicas do Hospital das Clínicas (HC) e filiado a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), Marcio Mancini.
Nos idosos as chances são ainda a maiores, devido a mudanças hormonais. No caso das mulheres, a partir da menopausa, há a diminuição de estrogênio (produzido nos ovários), alterando a distribuição de gordura no corpo. Já os homens são mais propensos a acumular gordura intraabdominal - ou obesidade central - durante toda a vida.

“Na Terceira Idade há mais tendência a um ganho de peso conforme o metabolismo. Um indivíduo de 60 anos não tem os mesmos quilos de quando tinha 20 anos, mas também não ultrapassam muito, não porque os gordos emagreceram; se não tratados, morrem. Você já viu uma pessoa com obesidade mórbida chegar aos 80 anos?” questiona o endocrinologista.
Não são apenas os obesos e diabéticos que estão suscetíveis a SM. Magros com a famosa “barriga de cerveja”, até os que possuem sem beber, sofrem o mesmo perigo. Não há estudos no Brasil, mas pesquisas realizadas em outros países, disponibilizadas pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), apontam que um em cada cinco adultos nos Estados Unidos tem a Síndrome Metabólica e ocorre com mais freqüência entre os africanos, hispânicos, asiáticos e americanos.

“Nunca pesei o ideal e recomendável. Aos 18 anos, quando comecei a trabalhar, engordei 12 quilos em um ano. Minha vida sempre foi de regimes e o peso mínimo que alcancei já adulta foi de 75 quilos e tinha 1,67m”, conta a professora carioca Marilda Amaro, de 56 anos. Ela tem histórico familiar de diabetes e pressão alta e desde os 34 anos convive com as doenças. Leu em sites sobre a SM e tenta se cuidar para evitar o mal, controlando os quilinhos. Retomou o balé – interrompido aos 12 anos –, faz dança e alongamento, além de tomar remédios controlados.

Segundo a endocrinologista do Projeto de Atendimento ao Obeso (Prato) do Instituto de Psiquiatria do HC, Anete Hannud Abdo, o tratamento para o transtorno está numa dieta saudável e exercícios físicos. “Quando apresentando três ou mais fatores de risco (veja quadro) para o desenvolvimento da SM no paciente, deve-se tratar cada problema individualmente. Entretanto, ainda se discute o uso de medicação àqueles que têm a Síndrome e não são diabéticos”, completa.

Estudos norte-americanos mostram também que pessoas entre 55 e 75 anos ao se exercitarem moderadamente podem diminuir a gordura corporal e equilibrar a Síndrome.
“Parei de fumar em 2004, caminho na esteira da sala de ginástica do meu prédio, com orientação de uma professora de Educação Física. Por problemas emocionais, havia chegado em 1995 a pesar 105 quilos e hoje já estou com 96”, diz entusiasmada Marilda.
Conscientização. É isso que buscam as entidades para o combate desse tipo de doença no Brasil. Neste ano, membros da SBD e de outras instituições assinaram um manifesto com o objetivo de criar a Aliança Brasileira para a Prevenção da Obesidade e Doenças Associadas para estimular à prática de esportes e a o emprego de uma alimentação saudável, por meio de legislação, no país. As ações foram propostas pela Organização Mundial de Saúde e aprovadas pela Assembléia Mundial da categoria em 2004.

Com força de vontade e prevenção evita-se esta doença não apenas pela estética e sim para prolongar a vida com mais saúde. É uma questão de honra. E de peso.

Fatores que desencadeiam a Síndrome Metabólica:

• Obesidade abdominal: 88 centímetros nas mulheres 102 centímetros nos homens
• Triglicérides: Maior ou igual a 150 mg/dl;
• Índices baixos de colesterol bom (HDL): Menor do que 40 mg/dl nos homens e menor do que 50 mg/dl nas mulheres;
• Pressão Arterial: Maior ou igual a 13 (a máxima) e 8,5 a mínima;
• Glicemia de jejum: Maior ou igual a 100 mg/dl.
Se você possui três ou mais itens, poderá ter Síndrome Metabólica.


Serviço:
Dra. Anete Hannud Abdo, do Prato: www.hcnet.usp.br/ipq/prato
Dr. Marcio Mancini é do Grupo de Obesidade e Doenças Metabólicas do HC.


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